Mistérios ibéricos (o apagão espanhol)
05/05/2025
Fonte
Por Dimitris Konstantakopoulos

Não existem precedentes. Em dois países europeus — membros da UE e da NATO
— a electricidade foi cortada repentinamente. Outros dois países,
França e Marrocos, também foram afectados pelo apagão. A vida parou nos
dois países mais alvejados: passageiros ficaram presos nos comboios,
aeroportos mergulharam no caos e só em Espanha, os prejuízos estimados
podem chegar a 800 milhões de euros.
Não
se trata de um problema menor nem nada parecido, nunca aconteceu antes —
um apagão total em dois países e interrupções parciais noutros dois.
Até hoje, ninguém ofereceu uma explicação satisfatória para o ocorrido —
ou mesmo uma hipótese plausível de como tal “acidente” poderia
ter acontecido se, de facto, foi um acidente. É claro que, como sempre,
alguns apressam-se a usar o episódio para promover as suas narrativas. A
esquerda culpa a privatização — e, de facto, os novos proprietários
privados estão mais interessados em aumentar os lucros do que em
avolumar os custos, ao investir na segurança de rede. Os defensores da
energia nuclear aproveitaram a oportunidade para argumentar que a culpa é
da participação reduzida da energia nuclear na matriz energética
nacional. A extrema direita aponta o dedo para as energias renováveis
— essa é a sua acusação principal. Mas nenhum deles apresenta
argumentos sólidos.
Afinal,
vivemos numa era de irracionalidade, fanatismo e maniqueísmo/dicotomia –
onde abundam vozes sonoras, mas as evidências e os raciocínios são
escassos.
Mas
se não foi um acidente misterioso, então foi um ataque cibernético,
executado com uma estratégia de “choque e superioridade”. Se tal cenário
for verdadeiro, bem-vindo ao admirável mundo novo da guerra
cibernética.
É
compreensível que a liderança espanhola tenha negado categoricamente
essa possibilidade — tão categoricamente que parece estar relutante em
iniciar a procura de um culpado, temendo, possivelmente, as complicações
que poderiam surgir. Afinal, como se pode negar categoricamente tal
possibilidade quando a causa exacta do acontecimento permanece
desconhecida? Mesmo assim, o Governo não conseguiu convencer nem mesmo o
Suprema Tribunal do país, que ordenou uma investigação sobre a
possibilidade de um ataque cibernético, sem excluir nenhuma hipótese.
Essa abordagem também foi adoptada pelas agências de Serviços Secretos
de Espanha, incluindo o Centro Nacional de Criptologia e o Centro
Nacional de Inteligência.
A
possibilidade de um ataque cibernético foi suficientemente levada a
sério, para se tornar cabeçalho dos principais meios de comunicação
mediática internacionais. “Nenhuma prova de ataque cibernético” foi o
título escolhido pelo The Guardian. Mas esse título também
poderia ser lido ao contrário: “Nenhuma evidência de que não foi um
ataque cibernético”. Se a possibilidade não fosse séria, não teria sido
discutida e, muito menos, publicada nas primeiras páginas.
O
cenário mais provável é que nunca saberemos com certeza o que realmente
aconteceu. E se nunca descobrirmos, pode ser, precisamente, porque o
que aconteceu é demasiado importante para ser divulgado.
Dois suspeitos
Se foi um ataque cibernético, quem poderia ter sido o responsável? O Politico,
um meio de comunicação amplamente conhecido e bem informado, com grande
influência no Ocidente, identifica dois possíveis culpados: Israel e Rússia.
Como afirmou: “A oposição da Espanha à guerra de Israel em Gaza e seu
apoio à Ucrânia contra a invasão russa tornaram-na num alvo importante
de ataques cibernéticos.” https://www.politico.eu/article/spain-portugal-power-blackouts-energy-electricity/
A
referência a Israel é ousada e incomum para os padrões ocidentais
actuais, onde até mesmo a menor crítica a este país leva,
frequentemente, a rápidas acusações de antissemitismo e à condenação
pública. Por outro lado, embora não possa ser totalmente descartado,
parece ser improvável, o cenário de um ciberataque russo. É verdade que a
Espanha seguiu a postura anti-russa geral da NATO, mas o seu papel no
conflito na Ucrânia tem sido secundário. Não está entre os países que
pressionam mais agressivamente pela continuação da guerra da NATO. É
governada por uma coligação de socialistas com a esquerda radical —
esta última com muitas reservas em relação ao enorme programa de
rearmamento europeu de Ursula von der Leyen. Se Moscovo quisesse e
pudesse atacar, poderíamos questionar sobre o que ganharia visando a
Espanha — e por que razão não atacar o Reino Unido, a França, a
Alemanha, os países bálticos ou a própria Ucrânia?
Além
do mais, se houvesse a menor indicio sólido de que a Rússia estava por
trás do apagão, a Europa não teria explodido em condenação a Moscovo?
Alguns
colegas espanhóis com quem conversamos sugerem que a referência do
Politico à Rússia foi, provavelmente, incluída para que a menção a
Israel não ficasse isolada. E acrescentam: se um meio de comunicação
como o Politico fez tal sugestão sobre Israel, provavelmente
tinha um motivo muito sério para fazê-lo. Afinal, os meios de
comunicação da relevância do Politico mantêm, frequentemente,
algum nível de ligação com os principais serviços secretos ocidentais.
Claro que, se um grande país europeu como a Espanha sofresse realmente
um ataque cibernético semelhante, não passaria despercebido pelos seus
serviços secretos e nem, provavelmente, pelos dos outros estados da UE
ou dos EUA. Portanto, os nossos colegas apontam que o artigo também pode
ser lido como uma espécie de alerta.
Possíveis motivos e pré-condições
A
razão provável que poderia levar Israel a tomar tal atitude é a postura
altamente activa da Espanha a favor da Palestina, o que tem prejudicado
bastante as suas relações com Tel Aviv. Madrid reconheceu o Estado
palestino há um ano, juntamente com outros três países europeus. Há
poucos dias, sob pressão da ala radical da esquerda nas suas fileiras, o
governo Sanchez foi forçado a cancelar um importante contrato de compra
de munições de Israel, citando as acções genocidas deste último.
Ao
mesmo tempo, as autoridades espanholas reabriram o caso e estão a
conduzir investigações, em colaboração com a França, sobre a hipotética
vigilância do Primeiro Ministro Sanchez e de outros políticos espanhóis,
usando o ‘spyware’ israelita Pegasus.
É
importante ressaltar que esse mesmo sistema teria sido usado para
espiar o Presidente francês Macron, um facto que diz muito sobre a
correlação de poder entre a França e Israel https://www.reuters.com/technology/cybersecurity/spain-reopens-israeli-spyware-probe-sharing-information-with-france-2024-04-23/
! O Pegasus também foi usado, juntamente com o software Kandiru, para
vigiar dezenas de políticos catalães no escândalo Katalangate. O grupo
de direitos humanos Irídia e a Anistia Internacional concluíram que os
responsáveis por este caso, eram os chefes da empresa israelita NSO,
que mais tarde tentaram encobrir os seus vestígios, aparecendo como
chefes de várias empresas em Luxemburgo.
Desde
o ano passado, os principais piratas informáticos israelitas
estabeleceram-se em Barcelona, de onde coordenam as suas operações em
toda a União Europeia https://www.haaretz.com/israel-news/security-aviation/2024-12-26/ty-article/.premium/israeli-hackers-flock-to-barcelona-as-spyware-industry-shifts/00000193-fec4-df5b-a9b3-fec5d9dc0000.
O
facto de Israel estar agora sob o controlo de uma governação extremista
e fanática, que busca expulsar ou eliminar imediatamente a população
palestina — e tem todos os motivos para não se importar com as
formalidades das “democracias ocidentais” — é certamente um factor que
facilitaria a realização de tais acções internacionais, que em
circunstâncias normais seriam consideradas aventureirismo extremo,
especialmente contra dois Estados-membros da UE e da NATO. Israel
também parece ter-se tornado uma das forças globais mais poderosas em
vigilância e todas as formas de “guerra da informação”. Juntamente com
os americanos, provavelmente organizou ataques cibernéticos contra os
reactores nucleares do Irão, o ataque com pagers no Líbano, enquanto os
oficiais das Forças Armadas israelitas foram colocados em posições-chave
em todos os grandes gigantes da internet, como o Google.
(Conforme revelado pelo editor grego, Sr. Vaxevanis https://www.ieidiseis.gr/politiki/351413/vaxevanis-toylachiston-15-anthropoi-ekanan-tis-synakroaseis-gia-na-min-akoyei-oli-mera-ok-mitsotakis/ — e sem ser negado por ninguém — os oficiais israelitas também organizaram o escândalo condenável de vigilância na Grécia.
Não podemos não levar em consideração que as revelações sobre este
escândalo tenham surgido de agências americanas, que consideravam que os
israelitas tinham ido longe demais.)
É
claro que tudo o que escrevemos até agora, é, na melhor das hipóteses,
raciocínio especulativo e analítico — indicações e não conclusões. Mas
referimos esse mesmo raciocínio, porque consideramos
importante que o público e aqueles que ainda se interessam pela
segurança das nações europeias, estejam informados sobre o que está a
ser discutido nos círculos mais sérios do próprio Ocidente.
O Papel de Jorge
Esta é uma boa oportunidade para lembrar que o odioso Tal Hanan, ou “Jorge”, um “empresário” israelita e antigo oficial (?) das forças especiais do exército israelita, ligado à Cambridge Analytica — empresa acusada de manipular milhões de utilizadores do Facebook para votar em Trump — assumiu
a responsabilidade por ataques cibernéticos durante o período que
antecedeu o referendo (não vinculativo) de independência da Catalunha em
2014. Esses ataques tiveram como alvo o governo local e vários
sites que incentivavam as pessoas a votar no referendo. Também foram
realizados ataques cibernéticos contra o site dos serviços médicos de
emergência, contra a polícia catalã e contra o site interno do sistema
judiciário catalão.
É
necessário destacar que o papel de Jorge e da sua equipa na guerra
cibernética e na manipulação da opinião pública — utilizando milhões de
pontos de dados pessoais e outros métodos — foi exposto numa
investigação conduzida por alguns dos maiores jornais do mundo. A
sua equipe utilizou métodos de desinformação, pirataria cibernética e
espionagem e, supostamente, influenciou 33 eleições em todo o mundo. www.theguardian.com/world/2023/feb/15/revealed-disinformation-team-jorge-claim-meddling-elections-tal-hanan
No
entanto, o impacto de Jorge e da sua equipa durou pouco. “Alguém”
incumbiu-se de fazer com que o assunto desaparecesse rapidamente do
debate público. Quanto aos
jornalistas, hoje em dia, a grande maioria é paga não para descobrir ou
investigar — mas sim para permanecer em silêncio, para encobrir, não
para descobrir. E, geralmente, se algo é revelado, é quando
entram em choque, forças poderosas dentro do nosso Ocidente cada vez
mais totalitário.
No coração do crescente autoritarismo global
Independentemente do que tenha acontecido ou não em Espanha, sobre a concretização do apagão, o
certo é que os serviços secretos e as forças armadas de Israel —
juntamente com as agências americanas — têm acesso privilegiado aos
oligopólios que controlam cada vez mais o nosso mundo da internet e
representam a vanguarda do autoritarismo ocidental emergente. E talvez os israelitas tenham um “sentido de propósito” ou “missão” ainda mais forte do que os próprios americanos e, muitas vezes, podem usar estes últimos para os seus objectivos.
Acredita-se
que o relacionamento privilegiado do exército israelita com a Google
dá-lhes acesso a dados de centenas de milhões de utilizadores. A Google
colabora estreitamente — e colaborará ainda mais — com o exército
israelita, que, assim, obterá um acesso ainda maior aos dados dos
utilizadores. O mesmo se aplica ao Meta e ao Facebook. A aquisição da Wiz coloca a inteligência israelita no comando dos seus dados do Google. “Veteranos”
da Unidade 8200 de Israel assumiram cargos de liderança importantes nas
maiores empresas de tecnologia, como Google, Facebook, Microsoft e
Amazon. https://www.defenddemocracy.press/the-former-israeli-spies-working-in-top-jobs-at-google-facebook-and-microsoft/
A
Unidade 8200 é especializada em vigilância e colheita de dados
encriminadores, e os seus agentes projectaram e instalaram o spyware
Pegasus, que tem sido usado para monitorar dezenas de milhares de
políticos em todo o mundo e, provavelmente, foi usado no assassinato do
jornalista saudita Jamal Khashoggi.
Estes
quatro gigantes da tecnologia, juntamente com a Palantir, de Peter
Thiel — Thiel é a “Eminência Parda” de Trump e dos mentores dos seus
planos autoritários — colaboram estreitamente e contribuem
significativamente para os crimes que ocorrem na Palestina. https://www.defenddemocracy.press/tag/thiel-peter/
Traduzido do grego por Christian Haccuria